O que o SXSW 2026 deixou claro: o jogo é de quem constrói
Amy Webb matou o relatório de tendências. Ian Beacraft mostrou que o problema das empresas com IA é o organograma.

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Estivemos em Austin na semana passada. Fomos com um grupo, assistimos dezenas de sessões, construímos um agente de IA no WhatsApp para curar a agenda do evento em 20 horas. E voltamos com uma certeza que já tínhamos, agora confirmada pelo maior evento de inovação do mundo: o mercado vai ser de quem souber construir com IA, não de quem só usa.
Mas o SXSW também trouxe coisas que não esperávamos. Esse post é sobre elas.
O relatório de tendências morreu

Amy Webb é uma das futuristas mais influentes do mundo. Professora na NYU Stern, CEO do Future Today Strategy Group, ela publica todo ano desde 2008 um relatório chamado Emerging Tech Trend Report, baixado mais de 1 milhão de vezes por ano. Empresas do mundo inteiro usam esse relatório para planejar o ano seguinte.
Esse ano, ela subiu ao palco vestindo uma capa preta e encenou um funeral. O relatório foi declarado morto. O motivo: o cenário muda rápido demais para ser resumido uma vez por ano.
No lugar dele, Webb lançou o Convergence Outlook: um framework que mapeia o que acontece quando múltiplas forças colidem e se aceleram mutuamente. A ideia central é que IA, biotecnologia, fluxos de capital, pressão geopolítica e mudanças comportamentais não são tendências separadas. Elas se cruzam, e é no cruzamento que as mudanças reais acontecem.
Webb identificou 10 convergências: Compute Shock, Programmable Biology, Polycompute, Emotional Outsourcing, Autonomous Care, The Corporate Panopticon, The New Labor Equation, Human Augmentation, Agentic Economy e Living Intelligence.
O que isso significa na prática? Que planejar o futuro como uma lista de tendências isoladas ("IA vai crescer", "sustentabilidade importa", "Gen Z é diferente") já não funciona. O profissional que entende como essas forças se cruzam constrói diferente de quem ainda segue listas.
IA deixou de ser assunto e virou o ambiente

Para ter uma ideia de como IA dominou o evento: um terço de todas as propostas de sessão enviadas envolviam IA. A organização do SXSW, que até o ano passado separava as palestras de "tecnologia" das de "IA", fundiu os dois tracks num único. A justificativa: "artificial intelligence and the technology sector are now inseparable."
Carl Pei, fundador da Nothing (a empresa de hardware que cresceu justamente por repensar o design de smartphones), previu que apps como conhecemos vão desaparecer. No lugar deles, agentes de IA que entendem o que você precisa e executam sem que você precise navegar por menus.
Webb batizou uma de suas convergências de Agentic Economy. O conceito é direto: agentes criam instruções, robôs executam, a infraestrutura se torna progressivamente autônoma. Traduzindo: cada vez mais, os sistemas vão funcionar com agentes de IA tomando decisões operacionais sozinhos, liberando as pessoas para o trabalho que exige julgamento.
Na Tera, a gente vê esse momento acontecer toda semana. Quando um profissional publica o primeiro agente que o próprio time passa a usar, alguma coisa muda nele. Ele para de trabalhar dentro das premissas de outro e começa a criar as suas. É um caminho sem volta.
Sua empresa foi desenhada antes da IA existir

Ian Beacraft é CEO da Signal and Cipher, uma consultoria focada no futuro do trabalho na interseção com IA. Ele ocupou um dos slots mais concorridos do SXSW com a sessão "How to Design a Company That AI Can't Outpace" (Como projetar uma empresa que a IA não consiga ultrapassar).
Sua tese: o problema das empresas com IA não é a tecnologia. É o organograma. As estruturas organizacionais foram desenhadas para um mundo pré-IA e continuam funcionando da mesma forma, mesmo depois de adotar dezenas de ferramentas.
A frase que condensou o argumento: "IA reduz o custo de executar trabalho, mas não o custo de coordenar." Ou seja: você pode automatizar tarefas o quanto quiser, mas se a forma como o time se organiza, decide e prioriza continuar a mesma, o ganho real é pequeno.
Beacraft apresentou um framework de 3 níveis que ajuda a entender onde cada empresa está:
Operating: executar tarefas com IA. Responder e-mails com copilot, gerar relatórios, automatizar fluxos. É onde ~95% das empresas estão hoje.
Designing: criar sistemas que resolvem classes inteiras de problemas, não tarefas individuais. Aqui, o profissional pensa em processos completos, não em prompts isolados.
Architecting: codificar valores, julgamento e cultura da empresa em sistemas que agentes de IA usam para tomar decisões. É o nível onde a organização programa o comportamento dos seus agentes.
Isso reforça algo que a gente repete na Tera: quem só usa IA trabalha dentro das regras que outra pessoa definiu. Quem constrói define as regras. Os vencedores da era da IA não serão os mais rápidos a adotar ferramentas, mas os que redesenharem como o trabalho é organizado.
A provocação vale para qualquer builder: seu time está no nível Operating, Designing ou Architecting?
Quem não constrói aceita as premissas de quem construiu

Assistimos Tristan Harris ao vivo. Se você viu o documentário O Dilema das Redes (Netflix, 2020), conhece ele: ex-design ethicist do Google, cofundador do Center for Humane Technology. É uma das vozes mais respeitadas do mundo quando o assunto é o impacto da tecnologia na sociedade.
Na sessão "How We Could Lose Control", junto com o físico Anthony Aguirre (cofundador do Future of Life Institute), Harris mostrou como incentivos opacos, falhas de design, desalinhamento sistêmico e concentração de poder podem colocar a humanidade à margem das decisões sobre IA.
O padrão que atravessa todos esses riscos é o mesmo: quem não constrói aceita as premissas de quem construiu. Isso opera em escala global (quem faz os modelos define como eles funcionam), mas também em escala micro, dentro de cada time, todo dia.
Pense assim: o profissional que apenas usa IA trabalha dentro dos limites que alguém já definiu. As prioridades, os filtros, os objetivos embutidos na ferramenta são de quem a criou. Ele pode ser eficiente dentro dessas regras, mas as regras não são dele.
A Fast Company Brasil nomeou essa capacidade de soberania cognitiva: manter autonomia sobre suas decisões em ambientes mediados por algoritmos. Em outras palavras: saber pensar por conta própria quando todas as ferramentas ao seu redor estão pensando por você.
Rana el Kaliouby, cientista de IA conhecida por liderar pesquisas em reconhecimento de emoções (fundou a Affectiva, adquirida pela Smart Eye), defendeu um design de IA centrado em empatia, ética e intenção. Faith Popcorn, futurista e consultora de marcas como PepsiCo e Samsung, foi direta: "AI will never have empathy."
Webb nomeou uma de suas convergências de Emotional Outsourcing, que é a terceirização emocional para máquinas. Solidão opera como mercado. Companheiros de IA, plataformas que detectam emoções e serviços que terceirizam "a infraestrutura de como as pessoas se sentem" já existem.
Camilo Barros, fundador do Institute for Tomorrow e um dos curadores brasileiros mais ativos no SXSW, sintetizou: o valor do SXSW é "expor o que as pessoas já estão construindo agora". E a habilidade mais importante voltou a ser curadoria: separar sinal de ruído.
Quando IA gera conteúdo, código, análise e design em minutos, o diferencial migra para quem sabe o que não fazer. Para quem mantém soberania sobre suas decisões em vez de delegar julgamento para o modelo.
A Gen Z já entendeu o jogo

Scott Galloway é professor na NYU Stern, autor de best-sellers como The Four e Post Corona, e host do podcast Prof G. Ele é conhecido por combinar análise de mercado com provocações políticas sem filtro.
A sessão dele no SXSW lotou. Standing-room only. Ele disse que não quer que os mercados subam. O público, majoritariamente jovem, aplaudiu.
A tese: durante 40 anos, toda vez que o mercado sofreu um choque (crise dot-com, 2008, COVID), governos intervieram para proteger quem já tinha patrimônio, não quem estava começando. "At some point, we have to stop propping up the markets with young people's credit cards." (Em tradução livre: "Em algum momento, a gente precisa parar de sustentar os mercados com o cartão de crédito dos jovens.")
A Gen Z respondeu a isso do jeito dela. Uma pesquisa da Northwestern Mutual chamou o fenômeno de "nihilismo financeiro": quase um terço dos investidores Gen Z usam prediction markets como Polymarket. Lideram em meme coins e apostas esportivas. Não por irresponsabilidade, mas por resposta racional à percepção de que o sistema não foi feito para eles.
No painel sobre gerações e consumo, outro dado chamou atenção: 39% dos jovens discutem salários com colegas, algo que gerações anteriores tratavam como tabu. Dividem assinaturas, moradia, transporte. O consumo acontece via comunidades, não por decisões individuais.
Para quem constrói produtos digitais, o recado é claro: essa geração não confia em instituições. Confia em pares. Produtos que facilitam ação coletiva e transparência estão mais alinhados com como ela opera. Não por ideologia. Por necessidade econômica.
O que construir a partir de agora
O SXSW gera centenas de horas de conteúdo. A maioria vira post de LinkedIn na semana seguinte e é esquecida na outra. O filtro que separa insight de souvenir: o que muda no que você faz amanhã?
Saia do nível Operating. Use o framework de Beacraft. Se 95% do trabalho do seu time é executar tarefas com IA, o ganho tem teto. Identifique uma decisão recorrente que pode virar um sistema e mova pelo menos uma pessoa do time para o nível Designing.
Construa seu primeiro agente. A Agentic Economy que Webb descreveu não é teoria. Carl Pei já está construindo para ela. Escolha um fluxo do seu produto e pergunte: como um agente completaria essa tarefa sem interface gráfica? Se a resposta é "não conseguiria", você encontrou o próximo problema a resolver. Na Tera, profissionais constroem agentes funcionais em 7 dias. Não precisa de 6 meses. Precisa de 20 horas e atitude de builder.
Pratique curadoria como disciplina. Quando IA gera 10 opções de copy, 5 variações de design e 3 arquiteturas possíveis em minutos, a skill que importa é curadoria: saber dizer não para 17 delas.
Entenda como a Gen Z consome. Comunidades, transparência radical, confiança em pares. Se seu modelo de aquisição depende de funil individual e autoridade de marca, teste um canal comunitário antes de escalar o que já não converte.
Mate seus trend reports. O gesto de Webb vale para qualquer organização. Substitua listas de tendências por mapas de convergências: o que acontece quando duas ou três forças que você monitora colidem?
O SXSW 2026 confirmou o que builders já sabem na prática: IA virou o ambiente onde tudo acontece. E nesse ambiente, quem constrói as ferramentas define como o jogo funciona.
Na Tera, profissionais constroem seu primeiro agente em 7 dias e saem com um projeto funcionando. Esse é o salto que separa quem acompanha de quem lidera.
AUTOR
Redação Tera
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