mão segurando um celular que está com o jogo pokemon go aberto

Como está sendo aplicada a realidade aumentada em grandes produtos digitais?

Uma das grandes tendências dos próximos anos, a realidade aumentada já vem ganhando forças em diversas marcas. Mas, longe dos jogos, como ela se comporta no dia a dia e como gera valor para o usuário?

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Em 2016, um jogo de celular virou febre no mundo todo. Líderes políticos foram flagrados distraídos na Noruega, parques e ruas do Japão ficarem (ainda mais) lotados e aposto que até você, pelo menos no horário de almoço, dava um jeito de lançar pokébolas pelo quarteirão. (porque a gente joga até hoje e não conta pra ninguém!)

O PokémonGo teve 10 milhões de downloads só na primeira semana e popularizou uma tecnologia que caiu no gosto dos usuários: a Realidade Aumentada (ou AR, sua sigla em inglês). Por causa dela, você podia ter a sorte de encontrar um Dragonite no seu quarto ou no caminho para a padaria. Tudo bem, talvez Dragonite não mas um Zubat certeza que você encontrava.

Os games são geralmente early adopters de recursos desse tipo, mas definitivamente não são a aplicação exclusiva da AR. Na verdade, ela tem sido usada cada vez mais para resolver desafios de negócio.

No quinto e último dia da Digital Product Week, Leonardo Ferro, sócio da More Than Real, Pietro Bujaldon, co-founder da Smarters e Daniel Mathias, Head of Delivery Lab na Natura, conversaram sobre esse mercado e compartilharam casos em que a Realidade Aumentada foi responsável por transformar empresas e produtos.

E o que é, exatamente, AR?

A Realidade Aumentada é uma tecnologia que adiciona uma camada de informação adicional no ambiente físico — ao contrário da Realidade Virtual, por exemplo, que transporta a pessoa para um outro ambiente, em que ela fica imersa em um contexto específico usando dispositivos como os óculos de VR.

No caso do AR, o único dispositivo essencial é o que já está no bolso de todo mundo: o smartphone. São 3 bilhões de aparelhos espalhados pelo mundo, hoje com uma capacidade computacional que era impensável no início da era mobile.

A expectativa, daqui até 2022, é que o mercado de AR movimente entre 90 e 120 bilhões de dólares. Só nos últimos 12 meses, segundo dados da Merrill Lynch e Digi Capital, foram investidos 4 bilhões de dólares de venture capital nesse segmento e foram realizados 3,5 bilhões de downloads de aplicativos relacionados a AR.

gráfico que apresenta dados sobre a qualidade da realidade aumentada por device

Em sua essência, a Realidade Aumentada caminha de mãos dadas com a Inteligência Artificial. E em vez de ficarmos restritos a telas — do celular, computador, tablet —, o mundo inteiro passa a ser o nosso canvas.

AR é uma das tantas tecnologias exponenciais que estão mudando a maneira como a gente se relaciona. Já estamos interagindo com ela também no mundo dos negócios. Às vezes, sem nem perceber.

Redes sociais como facilitadoras

Quem nunca usou um filtro do Snapchat ou do Instagram stories, que atire a primeira pedra. Ok, ok, pode até ser que você não tenha usado, mas sabe do que estamos falando, não?

As redes sociais têm sido uma plataforma comum para aplicações de AR, e mostraram-se um meio mais rápido e mais barato para negócios não só validarem ideias, como também extraírem o entendimento necessário para poder evoluir nesse caminho em outras plataformas.

Dentro da rede social, você já tem o público, o canal de distribuição, um potencial de escala relevante, e um custo de desenvolvimento consideravelmente menor, já que não é necessário desenvolver um aplicativo — ainda que essa também seja uma opção, via Google (ARCore) ou Apple (ARKit), por exemplo.

prints de celular mostrando a realidade aumentada em cada aplicativo de midia social

É extremamente provável que, no curto prazo, a Realidade Aumentada permita uma revolução no processo de compra. Ela já está sendo utilizada, inclusive, para dar suporte à jornada do consumidor pelo funil de marketing.

Quer um exemplo?

  • Para a fase de awareness, a Coca-Cola desenvolveu um filtro durante a Copa do Mundo em que torcedores podiam compartilhar vídeos curtos em seu perfil, enquanto divulgavam um novo produto da marca.
  • Seguindo para a fase de experimentação e consideração de venda, a Latam “teletransportava” potenciais clientes para Lisboa, nova rota direta da companhia aérea, de forma que o desejo de compra fosse ampliado.

exemplos de aplicação de realidade aumentada em diferentes fases do funil

  • Finalmente, para efetivar a compra, os AR ads têm funcionado como um grande facilitador. Um dos recursos desenvolvidos pela More Than Real consiste no reconhecimento de produtos do dia-a-dia, oferecendo preço e outras informações e encaminhando o usuário diretamente para o checkout.

Além das redes sociais, AR também já vem sendo implantado no contexto de materiais impressos, pontos de venda e da própria indústria.

Hoje já é possível fazer com que câmeras reconheçam itens em catálogos e direcionem o consumidor para o e-commerce; agilizar a experiência de consumidores em lojas, com mobiliário que permite interação, como espelhos com provadores virtuais; e incrementar a produtividade em fábricas com dispositivos de AR que, utilizados por funcionários, aumentam a velocidade e qualidade de entrega e reduzem chances de erros.

O caso Natura

Na maior multinacional brasileira de cosméticos, 60% dos contatos no atendimento aconteciam para a troca de produtos. Como AR poderia diminuir essa taxa?

Após pesquisas, o time da Natura criou o objetivo de permitir que potenciais consumidoras testassem diferentes produtos antes de adquiri-los, reduzindo a resistência na hora de comprar e aumentando a probabilidade de satisfação quando o produto fosse entregue.

Daniel conta que eles decidiram começar pelo varejo físico: instalaram em algumas filiais um espelho virtual interativo. Depois do sucesso nas lojas, a experiência foi transportada para o varejo online. Com um aplicativo de reconhecimento facial, escolheram uma linha direcionada para o público jovem como um primeiro experimento. Primeiro com um produto de cada vez, evoluíram então para uma simulação de look completo.

O resultado? Maior interação nas comunidades, tempo de navegação no aplicativo, engajamento e, por fim, conversão em vendas — 58%, para sermos mais exatos. Não só isso, o índice de reclamações diminuiu e o número de clientes que compram na Natura online pela primeira vez também cresceu em 20%.

foto de um celular mostrando uma menina testando maquiagens com filtros virtuais

Móveis virtuais em casa

A Promart, home center com 25 lojas no Peru, lançou um desafio para a Smarters: acompanhar, virtualmente, o povo peruano na construção da casa dos sonhos deles.

A solução foi um chat bot que não só auxiliasse o atendimento como a jornada de compra dos usuários. Uma das funcionalidades, de reconhecimento de imagem, permitia que o robô comparasse fotos enviadas pelos potenciais clientes aos produtos da Promart, para gerar recomendação de móveis e objetos similares. A evolução foi inserir QR codes no catálogo que levassem o consumidor a um carrossel de itens que compunham o ambiente montado e decorado.

Virou febre no país inteiro. “Mas faltava o processo de inspiração e experimentação”, conta Pietro.

E foi aí que AR fez o bot ficar famoso de verdade, porque usuários passaram a poder testar os móveis dentro de suas próprias casas. Apontando a câmera para o espaço destinado a um sofá ou a uma mesa, o programa permitia avaliar cor, luz e posicionamento de cada objeto.

Em duas semanas de teste A/B, a empresa observou 45% de aumento na adição desses produtos ao carrinho de compra. E as vendas? Dobraram.

Paciência e propósito

É comum vermos empresas ansiosas por associar sua marca à inovação, mas quando falamos de soluções perenes e reais transformações de negócio, maturidade e paciência são fundamentais. É preciso, acima de tudo, entender o porquê do uso de determinada tecnologia.

“A gente ouve falar de AR e pensa ‘animal, vou fazer isso amanhã’, mas tem que ter calma nessa hora”, diz Daniel. É preciso considerar todo o processo que antecede a implementação e entender como de fato aquela experiência gera valor.

A boa notícia é que, se ela resolve um problema de negócio, os resultados não levam tanto tempo. “Eu considero que esse tipo de tecnologia tem uma distância menor entre o early adopter e o consumidor padrão”, aponta Pietro, “A adoção é rápida porque ele visualiza o ganho rapidamente.”

“A gente passou da fase de achar que a tecnologia pela tecnologia vai resolver tudo”, complementa Daniel, “Sem pensar no cliente final e no propósito, a tecnologia perde sua força.”

Como está sendo aplicada a realidade aumentada em grandes produtos digitais?

by Kaique Paes tempo de leitura: 6 min
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