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Eu não gosto do Snapchat

Mas isso é problema meu.

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Minha primeira vez com o Snapchat foi há um ano.

Baixei, abri, não entendi.

Procurei amigos, não encontrei. Tirei uma foto, não sabia o que fazer com ela. Pra quem enviar, por quê enviar?

Não entendi a lógica.

Deletei.

A segunda vez foi há 8 meses.

Baixei, abri, não entendi.

Procurei amigos, encontrei alguns. Poucos. Olhei uns snaps, achei chato. Momentos randômicos de pessoas aleatórias. Os pequenos momentos da vida de um ser humano comum. Qual a graça?

Precisa ter mais uma rede social pra esse tipo de coisa?

Achei que tinha entendido a lógica, mas não gostei. E daí? Posso viver sem.

Deletei.

A terceira foi há 3 meses.

O Snapchat não parava de crescer. Mais de 150 milhões de usuários. Teria algo de errado comigo?

A Leticia, que trabalha comigo, me disse que era no Snapchat que ela passava a maior parte do tempo. Muito mais que YouTube, Facebook, Twitter. Mais que Whatsapp. Ok, ela tem 19 anos.

Mas aí amigos mais velhos, da minha idade, também estavam entrando aos montes. Como assim?

Se tanta gente usa, deve ter alguma coisa de bom. O problema seria eu? Fiquei velho demais pra essa coisa?

Pedi ajuda pra Leticia. Num almoço, ela me explicou tudo. Me contou porque ela usava, em quais ocasiões, com quais motivações. Mostrou como mexia na coisa, mostrou os atalhos, deu dicas de quem seguir.

Baixei, abri, snap, snap, snap.

Eu entendi, de verdade. E continuei não gostando.

Mas desta vez não deletei.

O problema é todo meu

Como ser humano, tudo o que me causa estranheza me gera repulsa. E o Snapchat é estranho.

A narrativa não é linear. Sinto que meu cérebro fica procurando alguma ordem naquele caos de fotos e vídeos aleatórios, mas não consegue.

O conteúdo é efêmero. É a característica mais interessante e a que mais contribui pro sucesso do Snapchat. A escassez gera a urgência para o consumo, e para quem produz gera liberdade e desprendimento. Seja lá o que for, se apagará em 24 horas. Desloca nossa percepção de permanência das coisas. Por outro lado, porque compartilhar algo que não tenha a função de eternizar um momento? A motivação é diferente.

Virtual + Real = Infantil. Muito mais do que a capacidade de registrar momentos, o Snapchat permite um brincadeira nova: adicionar “recursos especiais virtuais” sobre os vídeos e fotos. É um tanto quanto infantil, divertido no começo, cansativo depois.

Tem outras coisas: a forma de usar não é intuitiva, o feed de conteúdo não tem uma ordem lógica, encontrar usuários que possam ser interessantes é complicado, não dá pra curtir, não dá pra recomendar um conteúdo.

Então não é tipo Facebook pra adolescentes, nem é uma mistura de Instagram com Whatsapp. E essa é a chave pra compreensão: abrir mão de encaixá-lo nos meios e narrativas que conhecemos. Ele é único.

Mas precisamos dizer a real: é banal

Mesmo depois de realmente entender e de passar a admirar o Snapchat como produto e rede social, eu continuo não gostando.

Simplesmente porque a maior parte do conteúdo ainda é banal.

Pessoa famosa que eu não conheço fazendo um Snap super interessante.

Pelo menos no meu feed, as principais categorias são: cachorros ou gatos fofinhos, caretas turbinadas com efeitos especiais, o tédio da fila do avião, monólogos superficiais, comida (e as fotos de comida nunca são apetitosas) e baladas que eu não estou participando.

Ainda bem que desaparece em 24 horas, porque se ficasse registrado todo mundo ia perceber que não tem nada de realmente interessante acontecendo ali.

Mas se é banal, por quê participar?

Minha conclusão: eu posso não gostar do Snapchat como usuário, isso é problema meu. Mas como um profissional num mundo digital, eu simplesmente não posso ignorar que mais de 100 milhões de pessoas estão escolhendo esse meio para se expressar, diariamente.

E tem mais: no mundo em que vivemos, nada permanece no mesmo lugar.

Se tem algo que a internet nos ensinou nos últimos 20 anos é que as coisas mudam rápido.

Homepage do YouTube em 2006

Assim como o YouTube deixou de ser um “site” com vídeos de gatos e bebes fofos para se tornar uma rede de criadores de conteúdo profissional, com bilhões de espectadores, eu acredito que o Snapchat vai amadurecer e se transformar. Eu tenho razões para acreditar.

O Snapchat tem 10 bilhões de visualizações de vídeos por dia. O tempo médio de engajamento diário é de 25 a 30 minutos, e são mais de 100 milhões de usuários ativos no mundo, quase 50% fora dos Estados Unidos. E crescendo. Como ignorar isso?

Alguns dos principais publishers do mundo, incluindo CNN, estão fazendo conteúdo nativo para Snapchat. Na minha opinião, a experiência de consumo é fantástica, assim como o conteúdo que estes canais estão produzindo.

E agora você pode “assinar” os canais prediletos e ver os destaques diários no seu feed, bem fácil.

Com isso, o Snapchat está trabalhando para aumentar o tempo de permanência dentro do aplicativo, o que por sua vez faz aumentar o interesse de anunciantes e o valor da mídia.

Mais de 60% dos jovens de 18 a 24 anos usam o Snapchat diariamente nos Estados Unidos. Em 10 anos, eles provavelmente continuarão no Snapchat (o argumento é embasado no conceito de “gráfico social”, que é assunto pra outro post). E o que mais deve acontecer em 10 anos com esses jovens? Aumento do poder de consumo. E com isso, aumento da atratividade para anunciantes. E onde tem dinheiro tem o que? Fica pra reflexão.

Sabe a menina que começou no YouTube e hoje é uma celebridade? No Snapchat tem também. Thaynara Gomes, advogada maranhense conhecida no Snapchat como Thaynara OG, tem quase 1 milhão de seguidores e vídeos com 400 mil visualizações. Já participou de programas de TV e está fechando vários negócios com marcas, que pagam uma fortuna por um vídeo de 10 segundos. Ela é apenas um exemplo: tem uma nova geração de criadores de conteúdo e influenciadores surgindo no Snapachat.

Ainda é cedo pra entrar na festa

O Snapchat foi fundado há apenas 4 anos e tudo indica que a vida será longa e intensa. Por mais banal que pareça agora, ele veio pra ficar.

Com o crescimento exponencial da base de usuários e o volume de dinheiro que eles tem (acabaram de levantar mais R$1.8 Bi de dólares, com Jorge Paulo Lemann — vejam só! — como um dos investidores) existe uma boa chance dele entrar pro hall dos gigantes de tecnologia e disputar mercado com Google e Facebook nos próximos anos.

Ainda assim, a real é que ninguém sabe como usar o Snapchat. Ainda tem (relativamente) pouca gente tentando, a média do conteúdo é banal e você pode experimentar suas ideias mais loucas.

Então este é meu conselho: se você é mais velho — digamos, acima de 25 anos — não deixe a birra te afastar de algo que parece ser tão promissor.

Seja qual for o seu trabalho, é possível que você precisará, mais cedo ou mais tarde, entrar na onda.

Então comece antes e divirta-se. Tudo dura tão pouco que não vale a pena se preocupar.


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